- Coloque um disco aí.
- Qual?
- Ah, qualquer um. Eu confio no seu bom gosto.
Com um sorriso no rosto, escolheu um dentre os vinis. Sim, era do tipo que colecionava vinis antigos. Herdou dos pais quando a mãe descobriu o CD. Ele achava os LPs mais charmosos, ainda tinha aquele chiado antes de começar a música, sabe? Ele gostava daquilo. Apesar do problema de espaço do pequeno apartamento.
O chiado… o uísque sem gelo pra ele e com pra ela.
- Quem é essa que está cantando?
- Ângela Rô Rô, conhece?
- Já ouvi falar. É uma meio louca, né?
- Louca?
- É! Meio louca, meio lésbica, meio fossa.
- Que bobagem!
- Sei lá, as músicas dela são tristes. Parecem coisa pra fins.
- E o que importa se é louca, lésbica?
- Ah, apenas referências.
- Você já parou para escutá-la? Isso é lindo.
- É meio desesperado.
Era “Gota de Sangue”, uma de suas favoritas.
- E o que não é desesperado? Sem pensar na Ângela, só ouvindo o que ela diz aí, só sentindo o que ela está cantando. Me diz, não é uma coisa linda?
- É triste.
- E existe canção de amor que seja só alegre? Existe amor feliz? Talvez haja, mas eu nunca vivi um.
- Eu nunca vivi um amor.
- Talvez seja melhor assim. Se bem que aí, você nunca vai compor uma música bonita ou escrever um livro de verdade.
- Eu não quero isso. Quero não ter que sofrer. Nem que pra isso eu morra no anonimato.
- Eu não sei o que quero. Talvez queira calma. Mas continuo me abalando com as coisas.
- Sério, essa mulher parece sofrer demais. Vale a pena?
- Às vezes sim. Pelo menos ela sente algo.
Encheu os dois copos, buscou mais gelo pra ela. Perguntou se queria guaraná. Ela cantarolou alguma coisa e disse que não, que estava bem daquele jeito.
- Você não vai colocar essa música de novo, vai?
- Vou. Até você aprender a gostar dela.
- Eu não vou gostar. Odeio essas coisas deprimentes.
- Presta atenção, porra! Ouça, feche os olhos e ouça. Com o corpo. Tire esse gelo do uísque, jogue isso fora.
Ele pegou o gelo e atirou no vaso de flores.
- Ei!
- Beba ao natural e sinta a música.
A voz rouca tomava conta de todo o ambiente. Ela sentia. E o uísque descia rasgando. Uma pontada, que dor estranha era aquela? Talvez não fosse nada, só tinha bebido demais. Estava um pouco tonta. Ele colocou a mesma música várias vezes. Os dois no chão, os copos, os cigarros acabaram, só a música restava ali, só os dois. E o mundo? Sei lá. E a dor? Existia. E a voz? Ecoava e matava aos poucos. E ela já estava cantarolando “Não tire da minha mão esse copo…”. E ele tentou se aproximar e ela deixou. E ele colocou o braço em volta do pescoço dela e ela se aproximou mais e colocou a cabeça no peito dele.
- Sabe, eu quero amar um dia.
- Você consegue, eu sei que sim.
- Não queria que doesse.
- Esteja preparada. Uma hora ou outra vai doer. Pode ser que não seja assim, mas nunca se sabe.
- Por que?
- Porque tem gente que não sabe o que fazer quando tem alguém nas mãos. E disso nascem belas canções, filmes, livros. A gente acaba se sentindo um pouco mais vivo, um pouco mais do que essa gente.
- Mas tem que ser assim?
- Não, mas os outros não entendem isso.
- Que pena…
- É…
E Ângela continuava sem parar e a garrafa não tinha mais nada. Só os dois.