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Entradas categorizadas em ‘Tentativa’

Um pouco mais

Setembro 14, 2009 · 1 Comentário

- Coloque um disco aí.

- Qual?

- Ah, qualquer um. Eu confio no seu bom gosto.

Com um sorriso no rosto, escolheu um dentre os vinis. Sim, era do tipo que colecionava vinis antigos. Herdou dos pais quando a mãe descobriu o CD. Ele achava os LPs mais charmosos, ainda tinha aquele chiado antes de começar a música, sabe? Ele gostava daquilo. Apesar do problema de espaço do pequeno apartamento.

O chiado… o uísque sem gelo pra ele e com pra ela.

- Quem é essa que está cantando?

- Ângela Rô Rô, conhece?

- Já ouvi falar. É uma meio louca, né?

- Louca?

- É! Meio louca, meio lésbica, meio fossa.

- Que bobagem!

- Sei lá, as músicas dela são tristes. Parecem coisa pra fins.

- E o que importa se é louca, lésbica?

- Ah, apenas referências.

- Você já parou para escutá-la? Isso é lindo.

- É meio desesperado.

Era “Gota de Sangue”, uma de suas favoritas.

- E o que não é desesperado? Sem pensar na Ângela, só ouvindo o que ela diz aí, só sentindo o que ela está cantando. Me diz, não é uma coisa linda?

- É triste.

- E existe canção de amor que seja só alegre? Existe amor feliz? Talvez haja, mas eu nunca vivi um.

- Eu nunca vivi um amor.

- Talvez seja melhor assim. Se bem que aí, você nunca vai compor uma música bonita ou escrever um livro de verdade.

- Eu não quero isso. Quero não ter que sofrer. Nem que pra isso eu morra no anonimato.

- Eu não sei o que quero. Talvez queira calma. Mas continuo me abalando com as coisas.

- Sério, essa mulher parece sofrer demais. Vale a pena?

- Às vezes sim. Pelo menos ela sente algo.

Encheu os dois copos, buscou mais gelo pra ela. Perguntou se queria guaraná. Ela cantarolou alguma coisa e disse que não, que estava bem daquele jeito.

- Você não vai colocar essa música de novo, vai?

- Vou. Até você aprender a gostar dela.

- Eu não vou gostar. Odeio essas coisas deprimentes.

- Presta atenção, porra! Ouça, feche os olhos e ouça. Com o corpo. Tire esse gelo do uísque, jogue isso fora.

Ele pegou o gelo e atirou no vaso de flores.

- Ei!

- Beba ao natural e sinta a música.

A voz rouca tomava conta de todo o ambiente. Ela sentia. E o uísque descia rasgando. Uma pontada, que dor estranha era aquela? Talvez não fosse nada, só tinha bebido demais. Estava um pouco tonta. Ele colocou a mesma música várias vezes. Os dois no chão, os copos, os cigarros acabaram, só a música restava ali, só os dois. E o mundo? Sei lá. E a dor? Existia. E a voz? Ecoava e matava aos poucos. E ela já estava cantarolando “Não tire da minha mão esse copo…”. E ele tentou se aproximar e ela deixou. E ele colocou o braço em volta do pescoço dela e ela se aproximou mais e colocou a cabeça no peito dele.

- Sabe, eu quero amar um dia.

- Você consegue, eu sei que sim.

- Não queria que doesse.

- Esteja preparada. Uma hora ou outra vai doer. Pode ser que não seja assim, mas nunca se sabe.

- Por que?

- Porque tem gente que não sabe o que fazer quando tem alguém nas mãos. E disso nascem belas canções, filmes, livros. A gente acaba se sentindo um pouco mais vivo, um pouco mais do que essa gente.

- Mas tem que ser assim?

- Não, mas os outros não entendem isso.

- Que pena…

- É…

E Ângela continuava sem parar e a garrafa não tinha mais nada. Só os dois.

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Chuva

Agosto 14, 2009 · Deixe um comentário

Eu não estava acostumada ao medo de chuva. Venerava tempestades. Alguns dias olhava pela janela, mas, em outros, eu aproveitava pra me molhar inteira. Minha mãe sempre brigava comigo, dizia que eu iria pegar um resfriado. E eu saía correndo em disparada para longe dos gritos dela. Aquele momento era só meu e da chuva. Resfriado passa com o tempo, mas aquela chuva não iria mais se repetir e eu não tinha medo dos raios, de ficar encharcada, da gripe, das ameaças da minha mãe, de nada.

Algumas pessoas que eu conheci naqueles tempos, tinha medo e eu desafiava a todos. Hoje em dia, não costumo sair tanto de casa pra ver a chuva de perto, olho mais pela janela do carro, pela janela do quarto, pela tela, pela janela, mas ainda vou pro meio dela. E continuo conhecendo gente que morre de medo de tempestades. São casos patológicos. Não consigo entendê-los, assim como eles não respeitam minha mania de me jogar no meio do temporal.

Acho que no meio disso tudo, uma hora eu encontro um companheiro, alguém que não tem medo de se molhar, que olhe para os raios do mesmo jeito que eu, que ache que o resfriado, a gripe, a pneumonia são meros detalhes, coisas que fazem parte do enfrentamento. Uma hora eu acho… uma hora, duas horas, qualquer hora…

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Receita

Maio 3, 2009 · 2 Comentários

Mais uma vez cá estamos. Todos muito bonitinhos, engomadinhos, engraçadinhos. Tudo é feito pra ser rido. Você tem que fazer algo para encantar. Pra que falar de dor? Queremos levezas, queremos coisas bobas.
Já chegamos pra achar graça, mesmo que não tenha, vem o riso. E é assim que a mediocridade é perpetuada.

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A ideia

Abril 20, 2009 · 2 Comentários

Pensei ter uma ideia, mas não passou de um achismo. Ouvi dizer por aí que de amor não se morre. Não morre mesmo, mas a gente sofre como o diabo quando as coisas não dão certo.
- Então não era amor.
Não sei, ninguém me deu o manual.
- Amor não acaba.
Será mesmo?
Dizem também que tristeza não mata. Tá, não mata daquele jeito mais conhecido, não acaba com o corpo, mas destrói a alma. Quer morte pior? Às vezes a gente ressuscita, outras vezes não. Só segue, muitas vezes existem partes da alma pelo caminho, as outras se perdem mesmo.
A ideia nem era essa.

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Desconheço um título

Novembro 15, 2008 · 2 Comentários

“Sossega!” foi o que me disseram. “Aquiete-se, recolha-se, os malditos dias estão chegando.”. É esse final de ano, só pode. Tá todo mundo meio virado, meio atordoado, cheio de dúvidas, são os corações. Ninguém se entende, há um jeito de dor pelos cantos.

Ano cruel, se bem que os últimos anos têm sido bem estranhos. Talvez seja porque não tenha que fazer provas de final de bimestre nem ir pra natação nem fazer ballet nem levar o boletim pra minha mãe assinar. A normalidade não habita mais os meus dias. Não que eu não sofresse antes, mas era diferente, sem esperanças. Sofrer sem esperar que aquilo se resolvesse era minha melhor opção, não tinha medos na história.

Respiro fundo e tento seguir. A concentração não vem há muito tempo me visitar. Tenho uma bola de boliche entalada na garganta e ela está machucando, não consigo falar sem me molhar. Me esqueci de algumas palavras, minhas roupas estão do avesso e eu também.

Meus dias estão com cara de domingo, nublados. O tempo está emperrado. Existe um cheiro de ferrugem e de coisa guardada no ar. Queria saber como tirar tudo isso do porão. Preciso de ajuda, alguém pra carregar o baú junto comigo. O problema é que todo mundo tem seu próprio fardo, a gente não pode esperar que alguém leve o nosso peso.

Acho que as luzes de Natal reforçam um certo sangramento, é só um fio que escorre, mas intermitente. Depois vêm os fogos e tudo fica com uma cara diferente, mesmo que por pouco tempo. Os dias vão fazendo-me esquecer de tudo ou lembrar daquilo como uma coisa boa e ruim, mas sem doer, cicatrizado. O problema é que logo aparece outra coisa.

Já que não posso resolver isso agora, vou ouvir John Coltrane, andar por aí, acender um cigarro e torcer pra que ele dure 5 minutos, pelo menos.

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