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Chuva

Agosto 14, 2009 · Deixe um comentário

Eu não estava acostumada ao medo de chuva. Venerava tempestades. Alguns dias olhava pela janela, mas, em outros, eu aproveitava pra me molhar inteira. Minha mãe sempre brigava comigo, dizia que eu iria pegar um resfriado. E eu saía correndo em disparada para longe dos gritos dela. Aquele momento era só meu e da chuva. Resfriado passa com o tempo, mas aquela chuva não iria mais se repetir e eu não tinha medo dos raios, de ficar encharcada, da gripe, das ameaças da minha mãe, de nada.

Algumas pessoas que eu conheci naqueles tempos, tinha medo e eu desafiava a todos. Hoje em dia, não costumo sair tanto de casa pra ver a chuva de perto, olho mais pela janela do carro, pela janela do quarto, pela tela, pela janela, mas ainda vou pro meio dela. E continuo conhecendo gente que morre de medo de tempestades. São casos patológicos. Não consigo entendê-los, assim como eles não respeitam minha mania de me jogar no meio do temporal.

Acho que no meio disso tudo, uma hora eu encontro um companheiro, alguém que não tem medo de se molhar, que olhe para os raios do mesmo jeito que eu, que ache que o resfriado, a gripe, a pneumonia são meros detalhes, coisas que fazem parte do enfrentamento. Uma hora eu acho… uma hora, duas horas, qualquer hora…

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Transcrições

Dezembro 17, 2008 · 3 Comentários

Hoje, eu estava curtindo um sono pós-almoço e peguei a piauí de dezembro pra ler. Na seção de ficção topei com um texto muito bom, resolvi passar pra cá.
O texto é “Assustada De Repente” de Lydia Davis. Vou colocar aqui a parte que mais me impressionou e que mais tem a ver com o meu momento:

“A Lagarta
Acho uma pequena lagarta na minha cama de manhã. Não há nenhuma janela boa para eu jogar a lagarta, e não esmago nem mato nenhum ser vivo, a menos que seja inevitável. Então me dou ao trabalho de levar pela escada essa lagartinha fina, escura, sem pêlos, com a intenção de ir até o jardim. Não é uma lagarta de mariposa, embora seja do mesmo tamanho. Não arqueia o corpo no meio, mas caminha reta, firme, com os seus muitos pares de pernas. Quando saio do quarto, ela já está andando bem depressa sobre as protuberâncias da minha mão.

Mas no meio da escada, ela some – minha mão está vazia, dos dois lados. A lagarta deve ter se soltado e caído. Não consigo ver a lagarta. O vão da escada está escuro e os degraus são pintados de marrom-escuro. Eu podia pegar uma lanterna e procurar essa coisinha para salvar a sua vida. Mas não vou chegar a esse ponto - ela vai ter que se virar sozinha. Porém, como é que ela vai conseguir chegar à porta dos fundos e sair para o jardim?

Vou cuidar da minha vida. Acho que esqueci a lagarta, mas não esqueci. Agora, toda vez que subo ou desço a escada, evito o lado de cá dos degraus. Tenho certeza de que a lagarta está ali, tentando descer.

Enfim, desisto. Pego a lanterna. O problema agora é que os degraus estão muito sujos. Não limpo a escada porque ninguém vê os degraus aqui no escuro. E a lagarta é, ou era, muito pequena. Sob o facho de luz da lanterna, muita coisa se parece com ela – uma lasquinha bem fina de madeira ou um pedaço de linha grossa. Mas quando eu toco, não se mexem. Procuro em todos os degraus daquele lado da escada e depois do outro lado também. A gente sempre acaba apegado a qualquer ser vivo, depois que tenta ajudá-lo. Mas a lagarta não está ali. Tem muita poeira e muitos pêlos de cachorro nos degraus. A poeira pode ter colado o corpinho da lagarta e aí ficou difícil para ela se movimentar, ou pelo menos ficou difícil ir na direção que queria. Pode ter até secado a lagarta toda. Mas, afinal, por que ela haveria de descer em vez de subir? Não olhei no patamar acima do local onde ela sumiu. Não vou chegar a esse ponto.

Volto para o meu trabalho. Então começo a esquecer a lagarta. Esqueço durante uma hora, até eu ter de descer a escada de novo. Dessa vez, vejo que lá num dos degraus tem alguma coisa exatamente do mesmo tamanho, formato e cor. Mas está seco e achatado. Não pode ser ela, de jeito nenhum. Deve ser uma folhinha de pinheiro ou um pedaço de alguma outra planta.

Quando volto a pensar na lagarta, percebo que me esqueci dela por várias horas. Só penso na lagarta quando subo ou desço a escada. No final das contas, ela está mesmo em algum lugar, tentando achar o caminho para uma folha verde, ou então morrendo. Mas agora eu já não me importo tanto. Em breve, tenho certeza, vou esquecer a lagarta completamente.

Mais tarde, há um cheiro desagradável de bicho pairando na escada, mas não pode ser a lagarta. Ela é pequena demais para ter algum cheiro. Agora, ela na certa já morreu. De fato, era pequena demais para que eu ficasse pensando nela a vida toda.”

É mais ou menos assim que eu funciono, tudo acaba virando uma lagarta pequenina e depois eu esqueço.

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