Eu não estava acostumada ao medo de chuva. Venerava tempestades. Alguns dias olhava pela janela, mas, em outros, eu aproveitava pra me molhar inteira. Minha mãe sempre brigava comigo, dizia que eu iria pegar um resfriado. E eu saía correndo em disparada para longe dos gritos dela. Aquele momento era só meu e da chuva. Resfriado passa com o tempo, mas aquela chuva não iria mais se repetir e eu não tinha medo dos raios, de ficar encharcada, da gripe, das ameaças da minha mãe, de nada.
Algumas pessoas que eu conheci naqueles tempos, tinha medo e eu desafiava a todos. Hoje em dia, não costumo sair tanto de casa pra ver a chuva de perto, olho mais pela janela do carro, pela janela do quarto, pela tela, pela janela, mas ainda vou pro meio dela. E continuo conhecendo gente que morre de medo de tempestades. São casos patológicos. Não consigo entendê-los, assim como eles não respeitam minha mania de me jogar no meio do temporal.
Acho que no meio disso tudo, uma hora eu encontro um companheiro, alguém que não tem medo de se molhar, que olhe para os raios do mesmo jeito que eu, que ache que o resfriado, a gripe, a pneumonia são meros detalhes, coisas que fazem parte do enfrentamento. Uma hora eu acho… uma hora, duas horas, qualquer hora…
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Nem sei direito o que se passa comigo nesses últimos dias. Eu tenho me esquecido dentro de copos de cerveja e vinho. Entre um cigarro e outro vem um pouco de raiva de tudo o que não funcionou, lembrança de um sofrimento que eu não merecia, de uma covardia homérica. Eu ando tão confusa, cheia de rancores, desiludida em relação as pessoas. Não queria que fosse desse jeito, fiquei tão abalada, mudei mais do que eu poderia.
No começo, eu lutava pra não fazer planos, pra não fantasiar demais, porque era tudo tão longe e desconhecido. Aos poucos, fui me iludindo com promessas, me deixando atingir por variações de humor, vivia numa montanha russa de sentimentos, dois meses cheios de sofrimento. E, em alguns momentos, eu me alegrava com qualquer palavra menos ríspida, me satisfazia sorrisos pouco animados. Eu sabia que isso estava muito errado, mas queria arriscar, pois gostava demais.
A história estava se repetindo e eu sabia disso. Eu, que no começo, estava tão confiante e firme e não queria deixar ninguém me machucar de novo. Depois eu só conseguia sentir uma fraqueza imensa. Não entendo até agora porque fiz isso comigo. Estou cheia de dúvidas, de medos, de raivas e eu não gosto nem um pouco de sentir isso que estou sentindo por uma pessoa de quem eu gostava.
Quem me conhece sabe que quando eu gosto, eu gosto de verdade. Não jogo confetes em quem não merece, eu deixo tudo muito claro pra quem quer que seja, sem meias-palavras e olhares nublados. E sempre pessoas foscas cruzam meu caminho. Uma pessoa me disse certa vez que meu amor lhe causava medo. Que afirmação mais covarde. Que medo de sentir
Dessa vez eu fui com calma, queria deixar que as coisas acontecessem normalmente, tentava seguir a linha, andando sem vacilar. O problema é que o que é certo pra gente pode não ser certo pro outro. Eu só queria algumas certezas e não ganhei, eu queria bom dia ao pé do ouvido sempre e não pude ter, queria um telefonema recheado de palavras doces, mas nem todo mundo sabe o que fazer quando tem alguém nas mãos.
Muita coisa está diferente, nem sei mais se vou confiar meu coração a alguém de novo. Talvez. Esse negócio de prever o futuro não é comigo. Vou deixar festa acabar, barco correr, o dia raiar. Daqui a pouco é quarta-feira e tudo vai ser como tiver que ser.
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